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domingo, 13 de junho de 2010

A Morte do Filósofo Socrates



"... O sol já estava prestes a se pôr; pois Sócrates passara muito tempo neste lugar. Assentara-se, ao voltar do banho e, a partir daquele momento, a palestra foi muito breve. Chegou, então, o servidor dos Onze e, de pé diante dele, disse-lhe: "Sócrates, não tenho nenhum motivo para te censurar justamente naquilo que incrimino aos outros! Encolorizam-se contra mim e crivam-me de imprecações, quando convido-os a beber o veneno, pois tal é a ordem dos Magistrados. Quanto a ti, porém, já noutras ocasiões tive tempo suficiente para compreender que és o homem mais generoso, mais doce e melhor de quantos jamais aqui entraram. E, muito especialmente hoje, tenho plena certeza que não é contra mim que se dirige a tua cólera, pois conheces, com efeito, os responsáveis, mas contra estes. Agora, portanto, como não ignoras o que vim te anunciar, adeus! Procura suportar da melhor maneira aquilo que é fatal"! Começou, ao mesmo tempo, a chorar e, voltando as costas, afastou-se. Sócrates, levantando os olhos para ele, disse-lhe: "A ti também, adeus! No tocante a nós, seguiremos tua recomendação"! A esta altura, Sócrates voltou-se para nosso lado e disse: "Quanta gentileza neste homem! Durante toda a minha estada aqui, ele vinha procurar-me e se entretinha, por vezes, a conversar comigo: em suma, um homem excelente. E hoje, que generosidade na maneira como chora a minha sorte! Vamos, pois! Obedeçamos-lhe, Críton. Tragam-me o veneno se já estiver socado; caso ainda não esteja, que disse se ocupe quem estiver encarregado"!

Então Críton disse: "Mas Sócrates, se não me engano, o sol ainda está sobre as montanhas e não acabou de se pôr. Também ouvi dizer que outros beberam o veneno muito tempo depois de terem recebido o convite, e isto só depois de haverem comido e bebido á saciedade, alguns mesmo depois de ter tido comércio com as pessoas com quem pudessem ter vontade. Vamos! Nada de precipitações: há tempo ainda"! Ao que replicou Sócrates: "É natural, sem dúvida, Críton, que assim procedessem as pessoas a que te referes, pensando, com efeito ganhar algo com isso. Quanto a mim, porém, também é natural que não faça nada, pois penso que, deixando para beber um pouco mais tarde o veneno, outra coisa não lucro senão ter-me tornado objecto de escárneo para mim mesmo, colocando-me, assim, à vida e procurando economizar quando não sobra mais nada! Basta, porém, de falar; vai, obedece e não me contraries".

Assim interperlado, Críton fez sinal a um dos servidores que se mantinha perto. Este saiu e voltou ao cabo de verto tempo, trazendo consigo quem deveria ministrar o veneno já moído numa taça. Ao ver o homem Sócrates disse o seguinte:"Meu caro! Tu que estás ao corrente do assunto, dize-me o que devo fazer. _ Nada mais, respondeu, que dar uma volta depois de ter bebido, até que sintas tuas pernas pesadas, deita-te em seguida e permanece estirado: com isto ele produzirá efeito". Dizendo isto, estendeu a taça a Sócrates. Este tomou-a, conservando, toda a serenidade, sem um tremor sequer, sem a mínima alteração nem da côr nem dos traços. Mas, olhando na direcção do homem, um pouco por baixo conforme seu hábito, com seus olhos de touro, interrogou:"Dize-me é permitido ou não oferecer a alguma divindade uma libação desta bebida? _ Sócrates, respondeu o homem, nós mesmos apenas a dose necessária para beber. _ Entendido, disse ele. Mas, pelo menos, é permitido o que é aliás um dever, dirigir aos deuses uma prece pelo feliz êxito desta mudança de residência, daqui para lá em baixo. Eis minha prece: assim seja"! Logo que acabou de falar, sem parar, sem demonstrar a mínima resistência ou enjôo, bebeu até ao fundo.

Então nós, que quase todos havíamos feito o máximo até aquele momento para não chorar, ao vermos que bebia, que já tinha bebido, não pudemos mais conter-nos; minhas forças foram ultrapassadas e minhas lágrimas, a mim também, correram abudantes, de tal forma que, com a face, velada, chorava até me fartar sobre minha sorte (pois, evidentemente não era sobre a dele) sim, sobre meu infortúnio de ser privado de semelhante companheiro! Críton, aliás, incapaz, já antes de mim, de reter as lágrimas, levantara-se para sair. Apolodoro, por sua vez, que já antes, não cessara um instante sequer de chorar, comecou, então, como era natural, a lançar tais rugidos de dor e de cólera, que esmagava o coração de todos os presentes, salvo do próprio Sócrates. "Que fazeis lá? exclamou este; sois mesmo extraordinários! Se mandei embora as mulheres, foi sobretudo pelo seguinte: para evitar da parte delas semelhante falta de medida; pois como me ensinaram, é com palavaras felizes que devemos terminar. Guardem, pois calma e firmeza"! Ao ouvir tal linguagem, sentimo-nos envergonhados e deixámos de chorar.

Ele, porém, continuava a andar quando declarou que sentia as pernas tornarem-se pesadas. Então, deitou-se de costas, como efectivamente lhe recomendara o homem. Ao mesmo tempo, este aplicava a mão aos pés e às pernas examinando-o por intervalos. Em seguida, apertou-lhe fortemente o pé, perguntando-lhe se sentia; Sócrates respondeu que não. Depois, recomeçou na parte inferior das pernas e foi subindo para mostrar-nos que já começava a esfriar e a tornar-se hirto. E, tocando-o ainda, declarou-nos, que quando chegar ao coração, nesse momento Sócrates partirá. Já tinha pois, gelada quase toda a região do baixo-ventre, quando descobriu a face, que antes cobrira, e disse estas palavras, as últimas que pronunciou: "Críton, devemos um galo a Asclépios; pois bem, pagai minha dívida, pensai nela. _ Bom! Isto será feito, disse Críton. Mas vê se não tens mais nada a dizer". A pergunta de Críton ficou sem resposta. Ao cabo de curto momento, ele teve, entretanto, um sobressalto. Então, o homem descobriu-o: o seu olhar estava fixo. Vendo isto, Críton fechou-lhe a boca e os olhos.

Assim, foi o fim que vimos dar a nosso companheiro, o homem do qual podemos dizer, com justiça, que, dentre todos os de seu tempo que nos foi dado conhecer, foi o melhor, e, além disto, o mais sábio e o mais justo.

A ultima citação do Filósofo:
"Críton, somos devedores de um galo a Asclépio; pois bem pagai a minha dívida, pensai nisso".


obs: Essa postagem é dedicada ao Escritor Geziniel Teixeira

in Platão, Fédon, 116b _ fi

Quadro de David que representa a morte de Sócrates

2 comentários:

  1. ......... '/”\,
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    .. “-, . . . . . . ,-“
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    .... / . ,-~-, . \
    .. ’-“¯ : : : ¯”-‘

    Olá!

    passando rapidinho para ver as novis do seu blog!
    adoreiiii!
    tudo muito lindoooo por aqui!
    =D

    * * ( ' ""() Bye
    * ("( 'o', ) bye
    • (")(")(,,) * Vivian

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  2. Ficou lindo e elegante. Parabéns, vou levar o seu link. Abri um novo blog. Acho que peguei o vírus de vocês kkkkkk.Meu link é: http://eticaecidadania-odetedan.blogspot.com.
    obrigada,
    Odete

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Coletânea de poemas de vários autores - Trabalho Primoroso da Poetisa Luna de Primo