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sexta-feira, 18 de março de 2011

DESPREZO





A mulher somente despreza quem ela amou demais.

Não é qualquer homem que merece, não é qualquer pessoa.

Pede uma longa história de convivência, tentativas e vindas, mutilações e desculpas.

O desprezo surge após longo desespero.

É quando o desespero cansa, quando a dúvida não reabre mais a ferida.

É possível desprezar pai e mãe, ex-esposa ou ex-marido, daquele que se esperava tanto.

Não se pode sentir desprezo por um desconhecido, por um colega de trabalho, por um amigo recente.

O desprezo demora toda a vida, é outra vida.

É nossa incrível capacidade de transformar o ente familiar num sujeito anônimo.

Assim que se torna desprezo, é irreversível, não é uma opinião que se troca, um princípio que se aperfeiçoa.

Incorpora-se ao nosso caráter.

Desprezo não recebe promoção, não decresce com o tempo.

Não existe como convencer seu portador a largá-lo.

Não é algo que dominamos, tampouco gera orgulho, nunca será um troféu que se põe na estante.

Desprezo é uma casa que não será novamente habitada.

Uma casa em inventário.

Uma casa que ocupa um espaço, mas não conta.

É a medida do que não foi feito, uma régua do deserto.

A saudade mede a falta.

O desprezo mede a ausência.

O desprezo não costuma acontecer na adolescência, fase em que nada realmente acaba e toda vela de aniversário ainda teima em acender. É reservado aos adultos, desconfio que deflagre a velhice; vem de um amor abandonado.

Trata-se de um mergulho corajoso ao pântano de si, desaconselhável aos corações doces e puros, representa a mais aterrorizante e ameaçadora experiência.

Indica uma intimidade perdida, solitária, uma intimidade que se soltou da raiz do vôo.

O desprezo é um ódio morto.

É quando o ódio não é mais correspondido.

Não significa que se aceitou o passado, que se tolera o futuro;

é uma desistência.

Uma espécie de serenidade da indiferença. Não desencadeia retaliação, não se tem mais vontade de reclamar, não se tem mais gana para ofender.

Supera a ideia de fim, é a abolição do início.

Não desejaria isso para nenhum homem.

O desprezado é mais do que um fantasma.

Não é que morreu, sequer nasceu; seu nascimento foi anulado, ele deixa de existir.

O desprezo é um amor além do amor, muito além do amor.

Não há como voltar dele.



Fabricio Carpinejar









3 comentários:

  1. POr aqui tudo lindo. Vim desejar um fds em paz

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  2. Boa noite, querida amiga Elsy.

    Do pouco que conheço do Carpinejar, eu gosto muito.
    Da inteligência, irreverência, humor, etc.

    Esse texto me emocionou muito... Me fez chorar.

    Obrigada por compartilhar.

    Um grande abraço.
    Tenha uma linda noite de paz e alegrias.

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  3. Menina Elsy... que texto forte!!! e tabém muito interessante...
    Se eu tivesse que avaliar as experiencias vividas baseada nessas palavras... não conseguiria encaixar alguém a quem tenha desprezo....

    Diria que houveram pessoas que passaram da real importancia para total insignificancia... por simplesmente não merecerem a atenção e o cuidado que recebiam..
    E esse tipo de sentimento só tenho por pessoas desleais...
    Aceito discussões, ideias e habitos diferentes... afinal, cada um possui uma bagagem e devemos exigir que as pessoas pensem como nós...
    Mas, deslealdade... isso considero inaceitavel... e nesse momento a pessoa passa a não significar mais nada...
    Uma vez perdida a confiança, jamais será recuperada...
    Mas, esse desprezo como descrito no texto envolve outros sentimentos que nunca reconheci dentro do peito... e imagino que deva ser bem dificil viver uma situação assim...

    Belissima postagem... gosto de passear por aqui... vc é simplesmente especial!!!beijo grande minha amiga querida

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Coletânea de poemas de vários autores - Trabalho Primoroso da Poetisa Luna de Primo