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sábado, 3 de abril de 2010

SENTIMENTO DE IMORTALIDADE

"Meu amigo - Além dos filósofos que indagam, há ainda no mundo uma outra classe, menos brilhante mas mais numerosa de homens - são os tristes que choram.

(...) se um bom silogismos vale muito, uma lágrima bem quente, bem viva e bem sentida, deve valer tanto - ou muito mais ainda. O peso duma lágrima! Leve cousa, talvez, na palma da mão do filósofo, acostumada a levantar a mole espantosa dos argumentos, dos sistemas, das ciências. Mas quando no coração nos cai, duns olhos que Deus fizera para a luz e para a ventura, e a que a vida só deu sombras e abrolhos - então! sente-se bem o peso, a essa pobre gota de água, e não há aí peito de bronze que não vergue e se abale, como se o tocasse o dedo invisível de uma divindade...

Nesse estreito cristal se reflete um mundo de desventuras sem nome, de sortes incompreensíveis, de desesperos sem voz, de consumições solitárias, para que não há consolação possível na terra, porque a terra as ignora, porque são sombras de destinos violentamente despedaçados, porque são terríveis e irremediáveis como a morte! Como esse molusco do mar das Índias, de cuja pútrida consumpção nasce a pérola nacarada, assim da espantosa decomposição das misérias humanas sai, como símbolo de toda a melancolia da vida, a viva pérola de triste e doce reflexo - uma lágrima! Como os milhões de glóbulos numa só gota de sangue, movem-se ali, agitam-se e passam todas as tragédias, cuja catástrofe nenhum braço de ferro pôde evitar; todas as lutas, em que a virtude e a verdade se viram sempre esmagada, como sob o peso de maldição desconhecida; todas as fúnebres agonias das grandes almas ignoradas; todos esses dramas sem nome, que no mais baixo, no mais fundo da sociedade se revolvem misteriosos e terríveis! (...)

Vir-se ao mundo para amar, crer, sentir, ser bom e feliz, e forte, que tanto quer dizer homem, e achar um leito de espinhos, e endurecer-lhe o corpo e a alma, e descer e chorar, e ser mau e ignorante e mísero - uma existência a si mesmo traidora - um ser que renega sua própria lei - uma cousa feita para ser exatamente o contrário do seu destino - que é isto, senão a contradição terrível de tudo quanto temos por justiça, por verdade, por princípio e harmonia dos mundos?

É a negação dos sentimentos mais íntimos, das idéias mais essenciais.Ou o universo é o delírio dum demônio, ébrio de sua mesma maldade; ou para além do extremo, arco da ponte da vida nos espera o seio vasto de uma bondade, de quem não esquece um ai, um suspiro só; uma mão, que ate com amor os destinos partidos; uma lei de justiça, a que chamamos Compensação. (...)

Que a filosofia nos saia de dentro do coração, quente e luminosa, como uma extensão da nossa mesma alma em volta de nós, a nossa auréola, o nosso esplendor! Por que há de o pensamento temer a comoção como uma vergonha? Nunca se comoverá tanto, nunca será tão doce e humano, que em doçura e amor exceda a alma imensa do universo. Todos os argumentos de todas as escolas do mundo, amontoados, a que altura chegariam? Mas o olhar de uma mulher sobe, eleva-se no céu a tais distâncias, que não há já aí matemática bastante para lhe medir a largura do vôo!

Será isto também só poesia? a poesia é também verdadeira: é a evidência da alma. Se o pensamento indaga, o coração adivinha.Aquele podem iludi-lo os erros, que um desvio lhe introduza no cálculo atrevido. Mas a este não, que não calcula nem compara: vê e sente. Não é livre, não é ativo; mas por isso mesmo se não pode enganar. (...)

O que é ciência foi já poesia: o sábio foi já cantor; o legislador, poeta; e a evidência, uma adivinhação, um admirável palpite, cujas profundas conclusões são ainda o espanto, e porventura o desespero das mais rigorosas filosofias. (...)

Anteriores ás idéias estão os sentimentos (...) A alma é a verdade do homem. (...) Renegar do sentimento é rejeitar metade do mundo (...).

Fora da escola, fora da ciência, que importa? mas no meio dos homens, no ajuntamento dos que sentem, com a cabeça banhada pela doce atmosfera de crenças que todos respiramos - é aí, meu amigo, que eu assentarei a minha humilde tenda de crente. (...)

Dizer tudo, aqui, é dizer de mais. É o império crepuscular do sentimento, o mundo do mistério. Mistério santo e benéfico! Basta uma pequena luz ao longe para se ver aonde vamos. Como, isso é o imprevisto da viagem, o drama, a vida - é a sublime surpresa da alma. O futuro todo desvendado, essa grande certeza, essa imensa luz, cegariam o espírito com o brilho excessivo. (...) O vago convém ás grandes cousas, como vai bem em volta do vulto dos heróis o nevoeiro das legendas. (...) É por isso que a filosofia moderna nega a imortalidade, indagando de mais (...).

Estude-se, revolva-se o vasto universo dum ao outro confim do espaço; o mundo nos seus fundamentos; a natureza nas suas formas; a alma nas sua faculdades; mas o último mistério do homem, esse basta senti-lo..."

(Antero de Quental)



2 comentários:

  1. Que blog maravilhoso! Vontade de ficar aqui mais tempo...
    Vi que tornou-se seguidora de um dos meus blogs e vim lhe agradecer e conhecer o seu. Percebi logo, que como eu, é entusiasmada e dedicada a partilhar sua alma pela blogosfera! Parabéns!
    Voltarei para apreciar seu blog e pretendo conhecer os demais... Com calma!
    Gostei muito de encontrar Antero aqui! Certamente encontrarei os tesouros que adoro, em suas postagens!

    Desejo-lhe uma Santa Páscoa, junto aos seus familiares!

    Grande abraço

    Helô Spitali

    ResponderExcluir
  2. Que blog maravilhoso! Vontade de ficar aqui mais tempo...
    Vi que tornou-se seguidora de um dos meus blogs e vim lhe agradecer e conhecer o seu. Percebi logo, que como eu, é entusiasmada e dedicada a partilhar sua alma pela blogosfera! Parabéns!
    Voltarei para apreciar seu blog e pretendo conhecer os demais... Com calma!
    Gostei muito de encontrar Antero aqui! Certamente encontrarei os tesouros que adoro, em suas postagens!

    Desejo-lhe uma Santa Páscoa, junto aos seus familiares!

    Grande abraço

    Helô Spitali

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Coletânea de poemas de vários autores - Trabalho Primoroso da Poetisa Luna de Primo